domingo, 6 de novembro de 2011

ANDRÉ VÁSÁRY CANTA E ENCANTA COM SUA SINGELA MELODIA





SINTA O SOL!


Está sol, amiga! Mete a doença na gaveta, arruma-a ao pé dos relatórios clínicos, da TAC que te tirou o sono, das análises, dos RX, das ECO. Arruma-a cuidadosamente; era bom até que a esquecesses, que não te lembrasses mais de em que gaveta a tinhas metido, como acontece às vezes com os objectos que não queremos perder e que, mesmo com tanta preocupação, perdemos mesmo.
É que está sol, amiga, e enquanto lês e relês os relatórios médicos, e te engustias pelo futuro, esta manhã linda acaba, passa, e nem vais por ela porque não a viveste.
Está sol, querida, está sol! Lembras-te de quando éramos miúdas e estávamos contentes por nada de especial, apenas porque estava sol e podíamos ir até ao jardim brincar? Lembras-te de quando ninguém nos podia levar à rua e apenas se abriam, de par em par, as janelas da “casa de costura” e ficávamos a ver as pessoas a passar na rua, a olhar para o céu, para as copas das árvores, para os pássaros?
Lembras-te de lancharmos à janela, do sabor diferente das tangerinas comidas ao sol, do perfume das tangerinas a infiltrar-se nas nossas mãos e a passar para a casa toda?
Lembras-te de pormos o cavalinho de madeira à janela, connosco, para também apanhar sol e fingirmos que lhe dávamos cenouras? Era um faz-de-conta que nos fazia bem, porque estávamos felizes por nada, só porque estava sol e nós estávamos ali, as duas, mais o cavalinho de madeira…
Está sol, amiga. Que importa, neste momento, que os relatórios e os médicos te digam que “o dia” está próximo? Não cabe ao homem saber a hora… cabe viver e estar atento. Em que pões a tua atenção? Não te fixes só no real visível, porque com certeza já percebeste que a imaginação nos pode levar muito longe e que era por isso que gostávamos tanto do cavalinho de madeira. Ainda podes montar nele e visitar um Real mais verdadeiro do que todas as verdades do teu relatório médico.
Não te posso dar a minha Confiança, não te posso dar a minha Fé, não te posso dar a minhaEsperança. Só te queria fazer lembrar aquela alegria com que recebíamos uma manhã de sol
Que te dói hoje? Dizes-me que, fisicamente, quase nada. Então, abre as mãos e recebe o calor do sol, abre os olhos e recebe a luz, abre os ouvidos e recebe o som. E vive, agora, amiga. Amanhã pode ser que chova, que faça frio, que faça vento. Pode acontecer que não possas ir à rua e que nem sequer o tempo te permita abrir as janelas. Agora há sol. Vai até à rua ou põe-te à janela. E não me digas que não tens dinheiro para sair. Que dinheiro tínhamos nós aos seis anos? Ir à rua é só sair.
Dá-te ao luxo de seres pequenina e disponível para o contentamento.
Estás viva, não estás? Então arruma lá a tua doença na gaveta e anda brincar. Se puderes andar, vem a pé. Se não, vem no cavalinho de madeira. Está sol!
Fernanda Ruas
(in Jornal de Almada, 7 de Junho de 2002)

PROJETO BRASILEIRO LONGEVIDADE DA POPULAÇÃO


Projeto brasileiro estudará DNA de idosos saudáveis para aumentar longevidade da população.
Banco de dados com o genoma de pessoas saudáveis e com mais de 80 anos vai ajudar médicos e geneticistas a entender melhor doenças que ocorrem depois dos 50 anos e os mecanismos genéticos da longevidade, Marco Túlio Pires, de Washington.
Gerações: informações doadas por idosos vão ajudar a pavimentar uma melhor compreensão sobre a saúde dos jovens ( Comstock)
"O código genético daqueles que conseguiram chegar a oito décadas de vida, em um ambiente tão hostil quanto São Paulo, tem muito a nos dizer sobre como podemos aumentar nosso tempo de vida"
Mayana Zatz, geneticista da USP
O DNA de idosos que chegaram com boa saúde aos 80 anos poderá ajudar futuras gerações a viver mais - e bem. O Centro de Estudos do Genoma Humano (CEGH), da Universidade de São Paulo, está catalogando o código genético de pessoas saudáveis com mais de oito décadas de vida. A idéia é montar um banco de dados que possa servir de comparação com o genoma de pessoas mais jovens. Batizado 80+, o projeto foi apresentado pela geneticista brasileira Mayana Zatz durante a Fapesp Week, em Washington, nos Estados Unidos. 
Segundo o geneticista Kevin Davies, em poucos anos o seqüenciamento de DNA deve se tornar tão corriqueiro quanto tirar um raio-X. O fundador do periódico britânico Nature Genetics disse ao site de VEJA que, até 2014, um milhão de pessoas terão o genoma seqüenciado. "Vamos detectar milhões de mutações que podem ou não desencadear doenças", disse. "Quanto mais pessoas tiverem o DNA seqüenciado, mais variações desconhecidas encontraremos", acrescentou.
O que é genoma?
Daniel Cisalpino, mestre em biologia pela UFMG

 “O genoma é toda a informação hereditária de um organismo. Ele pode ser entendido como se fosse o disco rígido de um computador. Dentro dele ficam as pastas, ou cromossomos. Dentro de cada cromossomo ficam os arquivos, ou genes. Os genes são responsáveis por desencadear características e comportamentos do organismo, desde resistência a certos remédios ou o desenvolvimento de doenças. O Projeto Genoma, concluído em 2003, identificou onde ficava cada um dos três bilhões de "arquivos" dentro das 46 pastas — ou cromossomos — do código genético humano. Agora, os especialistas estão trabalhando para saber qual é a função de cada um dos genes"
"Se encontrarmos uma mutação no indivíduo jovem que também esteja presente no grupo dos '80+', ou seja, de idosos saudáveis, teremos uma indicação de que a alteração tem poucas chances de desencadear uma doença", disse Mayana. "Contudo, se for uma mutação que não está presente no banco de dados - ou seja, não se manifestou em idosos saudáveis - pode ser algo que o indivíduo tenha que discutir com seu médico."

Atualmente, o CEGH já tem o genoma de 400 pessoas com mais de 80 anos e saudáveis, a maioria da capital paulista. Os cientistas querem chegar a 1.000 indivíduos. Para isso, eles contam com a ajuda da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, que colabora com os dados demográficos de idosos que estão sendo acompanhados há 11 anos, e do hospital Albert Einstein, também da capital paulista, responsável pela análise de ressonância magnética cerebral dos voluntários e pelo transporte dos participantes. "Quando tivermos o seqüenciamento de todos os indivíduos, os dados relevantes ficarão disponíveis para toda a comunidade científica."
Aplicações - Mayana deu o exemplo de doenças neurológicas que começam depois dos 50 anos, como o Alzheimer. "O banco de dados do '80+' é formado por pessoas que têm chances mínimas de desenvolver essas doenças, já que são saudáveis em uma idade mais avançada", disse a geneticista. "Se uma pessoa jovem fizer o seqüenciamento do genoma, poderemos verificar se as mutações que ela tem são semelhantes às das pessoas saudáveis bem mais velhas. Isso vai dar uma resposta mais próxima do que pode acontecer com ela no futuro", disse.
Brasil Institute/jvinfante photography
Mayana Zatz: "Código genético de idosos guarda segredos sobre a longevidade"
O banco dos 80+ também poderá ajudar a conhecer melhor doenças graves, como a que afeta o físico britânico Stephen Hawking, a esclerose lateral amiotrófica. "Hawking possui uma variante rara", disse Mayana. "Pacientes diagnosticados com a doença geralmente vivem entre dois e três anos." A geneticista conta que especialistas encontraram um gene associado à esclerose lateral amiotrófica em pessoas saudáveis. Ainda é preciso determinar se a alteração basta para desencadear a doença ou se ela fica adormecida e algum dia pode causar a manifestação dos sintomas. "As informações reunidas no '80+' vão ajudar a esclarecer se uma pessoal que é saudável tem mais ou menos chances de desenvolver a doença", disse Mayana.

O trabalho do CEGH também vai ajudar a medicina a entender melhor os mecanismos genéticos da longevidade. De posse do genoma dessas pessoas, os cientistas terão acesso às informações hereditárias que as ajudaram a viver mais e bem. "Apesar do ambiente também influenciar na longevidade de uma pessoa", disse Mayana, "o código genético daqueles que conseguiram chegar a oito décadas de vida, em um ambiente tão hostil quanto São Paulo, tem muito a nos dizer sobre como podemos aumentar nosso tempo de vida."